Projetos

Introdução

Entre 1997 e 2007, realizamos uma série de instalações multimídia interativas com o Visorama, sistema inventado e desenvolvido por André Parente e Luiz Velho. Atualmente, o Visorama é um produto que está sendo desenvolvido e explorado pela empresa Digitok.

O Visorama pode ser caracterizado em função de suas aplicações em processos de visualização em áreas tão distintas como arte eletrônica, turismo histórico e entretenimento. Trata-se, antes de mais nada, de um sistema de visualização dinâmico e interativo, de uma janela virtual que nos permite visualizar de forma poética os espaços e as paisagens.

As três instalações até então realizadas com o Visorama tem na paisagem seu tema principal: a paisagem urbana, em particular a paisagem Carioca.

Na 2ª Mostra Petrobrás de Realidade Virtual (Universidade Cândido Mendes, 1999), o Visorama permitia ao público fazer uma visita virtual na cidade do Rio de Janeiro.

Na exposição Paisagem Carioca no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (2000), o espectador podia ver a paisagem carioca em três momentos distintos: a paisagem pré-historica, a passagem do século XIX ao século XX e o momento presente.

Já em Situação Cinema, exposição realizada em parceria com Kátia Maciel, no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (2007), o espectador podia observar as mudanças do espaço expositivo ao longo do processo de montagem da própria exposição.

A seguir, apresentamos uma série de projetos de instalações realizados em torno do campo nocional de Figuras na Paisagem.


1. Figuras na Paisagem: Estereoscopia

A instalação “Figuras na Paisagem: Estereoscopia” mostra, em uma projeção de 4 metros de largura por 3 de altura, um homem e uma mulher que se olham, em campo/contra-campo. No meio da sala, o espectador dispõe de um mouse, sobre um cubo de madeira, para ativar a imagem de cada um dos personagens. Se o cursor é colocado na parte de cima da tela, a imagem avança em um zoom-in. Se colocado na parte de baixo, a imagem recua, em um zoom-out. Se o cursor é colocado na parte mediana, o movimento de zoom para e a imagem fica parada.

A medida que o espectador provoca um zoom, ele percebe que a imagem é feita de várias outras imagens. A imagem do homem é formada por milhares de imagens da mulher, bem como a imagem da mulher é formada por imagens do homem. Na verdade, para cada pixel da imagem das duas imagens corresponde a imagem do outro, em contra-campo. Portanto, o movimento de zoom se torna infinito e iterativo, como em um zoom realizado sobre uma imagem fractal.

Em uma imagem fractal, a parte é igual ao todo, de forma que a realização de um zoom em uma das partes corresponderia ao movimento de retorno ao seu início. É exatamente isto que ocorre com nossa instalação: vemos o homem. Ele está em de pé, olhando frontalmente para a câmera, na ala das palmeiras reais no Jardim Botânico (Rio de Janeiro). Ao fazermos um zoom-in sobre esta imagem, percebemos que ela é formada por milhares de outras imagens. Ao nos aproximarmos das outras imagens, percebemos que se trata de uma imagem de uma mulher, também ela em posição frontal, em de pé, na ala das palmeiras reais no Jardim Botânico. Se continuarmos o zoom, chegamos diante da mulher. Ela também está parada, olhando frontalmente para o espectador. Se continuarmos nosso zoom, percebemos que a imagem da mulher é formada por milhares de fotografias do homem. Podemos continuar nos aproximando e voltarmos ao ponto de partida, que é a foto do homem.

“Figuras na Paisagem: Estereoscopia” se constitui, portanto, em um movimento contínuo – caso se faça um zoom-in ou zoom-out – que envolve duas pessoas fotografadas frontalmente, em campo-contra/campo (dispositivo principal da representação audiovisual), como na famosa figura da banda de Moebius, onde a imagem do homem constitui um dos lados da figura e a imagem da mulher o outro. Percorrer os dois lados, significa ir do homem à mulher em continuidade.


2. Visorama-Lumière

Visorama-Lumière é um projeto no qual utilizamos o Visorama para visualizar e interagir com as fotografias panorâmicas de 360 graus criadas pelos Irmãos Lumière para o Photorama há um século atrás. A coleção das vistas panorâmicas Lumière é composta por 307 títulos de um total de 608 apresentadas no catálogo da Sociedade Lumière em 1904. São fotografias de grandes dimensões (87 X 628 mm), realizadas com o aparelho Périphote para serem apresentadas no Photorama – sistema de projeção de vistas de 360 graus, apresentado pela primeira vez na Exposição Universal de 1900 em Paris. O Photorama consiste em um sistema permitindo a projeção de fotos panorâmicas em uma rotunda de 20 metros de diâmetros por 10 metros de altura. O curioso é que, entre 1900 e 1906, os irmãos Lumière tenham investido mais esforços na comercialização do Photorama do que na do Cinematógrafo. Isto demonstra que os irmãos Lumière eram sensíveis não apenas à inovação tecnológica, mas também à criação de novos dispositivos de projeção.

O objetivo do projeto Visorama-Lumière é fazer com que as vistas panorâmicas Lumières possam ser visualizadas como se fossem ambientes virtuais a serem explorados. O logiciel do Visorama contém duas inovações que contribuem para tornar o processo de visualização mais imersivo e interativo. Por um lado, ele tem um sistema de autoria que permite especificar transições entre as imagens mostradas. Por outro lado, ele possui um algoritmo de multiresolução que faz com que a imagem guarde sempre o mesmo nível de definição ao longo do movimento de zoom e evite o processo de pixelização da imagem.

   


3. Da Paisagem Urbana à paisagem rosto

No projeto Figuras na Paisagem, os espectadores utilizam o Visorama como um binóculo virtual para se deslocar “dentro” da imagem projetada, explorando-a em seus mínimos detalhes. A partir de um zoom de 30 vezes, o espectador começa a perceber que a imagem inicial (paisagem de um grande centro urbano) é formada por pequenas imagens de paisagens naturais (segundo nível de navegação). É importante notar que a imagem mantém sua resolução ao longo do zoom efetuado, qualquer que seja o nível de navegação.

Ao penetrar em uma destas paisagens naturais, o espectador se dá conta que o mesmo processo se repete, a saber, que se trata de uma imagem mosaico contendo outro nível de profundidade: no primeiro, a imagem urbana é composta por imagens de paisagens “naturais”; no segundo, as paisagens “naturais” são feitas de rostos. Quando o espectador se aproxima dos rostos, eles são ativados e ganham movimento, eles falam sobre paisagens. O espectador percebe que estes comentários proferidos pelas pessoas se misturam aos sons que acompanhava, em off, as imagens das paisagens vistas anteriormente. Na verdade, estes comentários nada mais são do que a expressão do sentimento destas pessoas sobre as paisagens por elas vivenciadas. Trata-se de um projeto de utilização do Visorama para a visualização de um documentário interativo sobre paisagens.

   


4. Atravessamentos

Atravessamentos é um projeto de realização de uma instalação na qual o Visorama é utilizado para interagir com o trabalho NBP (Novas Bases para a Personalidade), de Ricardo Basbaum, composto por um conjunto de elementos gráficos-visuais: siglas, objetos, desenhos, diagramas, situações e instalações. A idéia é criar uma conexão direta com o espectador, transformando-o em veículo e suporte do jogo da arte, uma vez que sua presença aciona os maquinismos da obra, colocando-a em funcionamento.

A instalação foi criada tendo como idéia básica o processo de hibridização das virtualidades dos dois sistemas, de forma a potencializar os efeitos um do outro, daí seu título. Aproximar as questões do projeto NBP das proposições do dispositivo óptico-digital Visorama abre algumas possibilidades de criação tanto numa como noutra direção, ou seja, no campo de ações e pesquisas da arte contemporânea e na área das investigações das novas mídias. Embora o projeto NBP se coloque como um conjunto de práticas no terreno da arte contemporânea e o Visorama enquanto interface tecnológica inteiramente criada no Brasil, este projeto coletivo, Atravessamentos, propõe a convergência dos dois projetos: o dispositivo Visorama investe em suas afinidades com a área da produção artística e o projeto NBP desenvolve algumas de suas possíveis virtualidades face às interfaces digitais.

  


5. Janela Indiscreta

No projeto Janela Indiscreta, o Visorama é utilizado para reencenar o dispositivo do cinema, criando novas possibilidades narrativas. O cinema é uma instalação entre outras que se tornou hegemônica e que faz convergir a arquitetura do teatro italiano, o romance do século XIX e a tecnologia da câmera e do projetor. Ao fazer convergir de outro modo a arte, o audiovisual e as interfaces interativas, transformamos radicalmente as possibilidades narrativas do cinema. Na instalação “Janela Indiscreta”, o loft do filme é reconstruído. Do lado da Janela, coloca-se o Visorama, aparelho que simula um dispositivo ótico de visão à distância, em particular um inóculo, para fazer o espectador interagir com um espaço urbano similar ao do filme.